domingo, 29 de dezembro de 2013

Musashi - Shinigami - (Parte 1)

Musashi
Shinigami








Por: Rogério Gouveia

Apresentação
Vivi pela espada e pela trilha do guerreiro. Nunca fui derrotado em vida e muitos foram aqueles que caíram pelo meu caminho.
            Aos treze anos eliminei meu primeiro oponente, em duelo, seu nome era Arima Kihei, um mestre da espada da escola Shintô. Minha sede de batalhas aumentou com o tempo e escolas inteiras foram dizimadas pelas minhas mãos. Até que chegou o dia, antes dos meus trinta anos, em que eliminei um dos maiores lutadores de meu país usando apenas um remo de madeira contra sua afiada katana.
            Depois deste duelo finalmente entendi que minhas vitórias não se davam completamente pela minha grande capacidade, mas sim pela ineficiência de meus inimigos. Depois deste dia de reflexão mergulhei dentro de minha mente e purifiquei minha ARTE por décadas até que cheguei no meu apogeu técnico, aos cinquenta anos.
            Minha lamina era tão temida que o simples sussurro de meu nome causava pânico nos mais valentes guerreiros, mas em meu coração existia um vazio, pois de que adianta ser um guerreiro se não existe ninguém a altura para lutar. Mas isso mudaria...
            Vivenciei uma vida exatamente da maneira que desejei. Sei que abdiquei de muitas coisas, como amores e amizades, mas esta foi minha escolha. E exatamente por ter vivido assim o que seguiu-se após minha derradeira data neste mundo, não poderia ter sido diferente.
            Minha vida de batalhas internas e externas me levou a uma nova estrada que nada mais era do que uma continuidade daquela em que caminhei enquanto no mundo dos homens.
            Meu nome é Shinmen Musashi Fujiwara no Genshin, mais conhecido como Miyamoto Musashi e esta é minha história. Não minha história enquanto vivo na terra, mas sim a continuidade de minha sina de batalhas e aventuras após a passagem a qual muitos chamam de morte e que eu denominei de Despertar!
1
Despertar
            Vagarosamente a visão do cansado guerreiro foi se tornando turva enquanto a vida escapava de seu corpo. Mas não havia temor algum em sua alma, pois há dias já sabia que o fim de sua vida estava chegando.
            Sem se perder em devaneios sobre o que haveria após o fim de sua jornada física o mais famoso samurai da história do Japão encarou o ambiente a sua volta e vendo que aquele seria seu ultimo suspiro sorriu em um instante final de curiosidade sobre o que viria.
            Brumas invadiram sua mente que se perdeu como em um gigantesco porre de sake. A sensação perdurou por alguns momentos até que explosões luminosas se fizeram à sua volta por alguns segundos dando logo em seguida lugar a uma enorme escuridão e uma estranha sensação de peso e dor. O que seria aquilo?
            O valente Samurai tentou sentir seu corpo e vagarosamente percebeu que ainda tinha braços e pernas, apesar de não poder vê-los. Com dificuldades moveu os braços até o rosto e percebeu que seus olhos estavam impregnados por uma substancia negra e pegajosa que também tapava seus ouvidos. Isso explicava a ausência dos sentidos.
            Retomando o controle de seus membros o guerreiro limpou-se da pasta negra e seus sentidos começaram a voltar vagarosamente.
            Uivos de dor e terror ecoavam a sua volta e assim que seus olhos se recuperaram ele avistou o cenário que o rodeava. Qualquer outro teria mergulhado em desespero, mas ele não. Encolhendo-se em posição defensiva, o Samurai observou calmamente o que parecia ser um vale cercado de montanhas onde a noite imperava e chamas negras e escarlates emergiam do solo. Mas isso não era tudo e procurando a origem dos gritos o restante do cenário se revelou. Seres demoníacos caminhavam ao longe arrastando pessoas rumo a algum ponto nas montanhas.
            - Bakemono... – balbuciou o guerreiro ao ver as enormes criaturas cor de ébano que arrastavam seus cativos em meio as rochas.
            O Samurai foi tentado a intervir mas decidiu que aquele não era o momento de confusão e cuidadosamente arrastou-se até uma rocha escondendo-se, enquanto os seres desapareciam ao longe.
            Vendo as criaturas desaparecerem por detrás de um aglomerado de rochedos o recém chegado ergueu-se e pela primeira vez encarou seu próprio corpo.
            - Fantástico!- exclamou ao perceber que estava jovem novamente. – Mas este lugar... Takuan (monge que o educou na juventude) estava errado. Isso não se parece em nada com o que ele imaginava do pós morte. – comentou o guerreiro consigo mesmo.
            Caminhando pelo estranho vale o samurai procurou por algo que pudesse vestir mas achou apenas alguns trapos velhos.
            - Bem, vai ter que servir... – balbuciou.
            - Não se preocupe com roupas... – interrompeu uma estranha voz vinda de suas costas e ao se virar o guerreiro percebeu a presença de um enorme demônio com cerca de dois metros e meio de altura. – Para onde vai, roupas não se fazem necessárias. Afinal nós não comemos roupas! – zombou o ser.
            Sem se assustar o samurai olhou a sua volta analisando o terreno e virando-se para o monstro falou:
            - Acabei de chegar e por isso não desejo combates por enquanto. Por isso lhe dou a oportunidade de continuar vivo se assim desejar. Basta que se vá!
            - O que! – gargalhou o demônio. – Quem você acha que é para falar assim. Você é comida e nada mais!
            - Aproveite sua chance. – retrucou Musashi.
            - Vou arrancar seus membros e levar apenas os pedaços. E sabe o pior, ainda vai estar consciente depois disso! -  grunhiu o monstro mostrando as garras de seus dedos que pareciam facas de cor escarlate.
            - Musashi! -  exclamou o samurai.
            - O que? – perguntou o demônio.
            - Meu nome. Não acho educado deixá-lo morrer sem saber que o eliminou. - respondeu o guerreiro.
            Urrando de ódio o monstro correu sobre o guerreiro que mergulhou no solo rolando enquanto pegava algo para levantar-se aos pés da criatura que repentinamente gritou e recuou assustada enquanto percebia pedaços de ossos cravados em suas axilas.
            - Tudo que vive, morre! – exclamou Musashi que com um salto voou sobre o ser para cravar o que parecia ser um enorme fêmur (osso da coxa) na testa do monstro que caiu pesadamente no solo sem vida. – Sarabada! – saudou ironicamente despedindo-se do inimigo.

            - Meus instintos estavam certos. – falou Musashi consigo mesmo. – Se estamos vivos aqui, podemos morrer novamente. – finalizou caminhando para longe daquele lugar antes que outras criaturas demoníacas viessem ao seu encalço.

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